Do Pão Francês ao Topo do Mundo: A Sandália que Virou Símbolo (e Alvo) Nacional

Do Pão Francês ao Topo do Mundo: A Sandália que Virou Símbolo (e Alvo) Nacional

Foto: Comercial de Fernanda Torres com Havaianas / Divulgação

O Brasil é um país de poucas unanimidades, mas a sandália de borracha com tiras em “V” sempre foi uma delas. Criada em 1962, inspirada na Zori japonesa, a Havaiana nasceu como um item de cesta básica, vendida ao lado do arroz e do feijão. Hoje, no entanto, a “legítima” vive um momento paradoxal: enquanto conquista passarelas internacionais, enfrenta no Brasil sua maior crise de imagem em décadas.

O DNA de uma Tradição

Por mais de 60 anos, a sandália foi o maior nivelador social do país. Do operário ao bilionário, o ato de “chegar em casa e colocar as Havaianas” tornou-se um ritual de relaxamento e identidade nacional.

  • A simplicidade como luxo: O modelo original (azul e branco) foi, por muito tempo, a única opção.
  • A virada de chave: Nos anos 90, a marca se reinventou com a linha “Top” (coloridas), transformando o chinelo de “coisa de pobre” em acessório de moda global.
  • Exportação de estilo: Atualmente, a sandália é vista em festivais de música na Dinamarca e em hotéis de luxo nas Maldivas, vendida por valores que chegam a dez vezes o preço praticado no Brasil.

Leia mais em: A reviravolta nas ações da Alpargatas, dona da Havaianas, após boicote da direita

O Conflito: Entre o Uso Popular e a Campanha da Discórdia

A polêmica deflagrada em dezembro de 2025, envolvendo a atriz Fernanda Torres, tocou em uma ferida sensível. Ao sugerir que o brasileiro não deveria “entrar em 2026 com o pé direito”, mas sim com “os dois pés”, a marca tentou usar uma metáfora de atitude e vigor.

Contudo, para uma parcela da população, a frase soou como uma afronta à tradição e uma provocação política direta às vésperas de um ano eleitoral. O que era um acessório neutro e democrático tornou-se, da noite para o dia, um objeto de demarcação ideológica.

“A Havaiana sempre foi o calçado do ‘pé no chão’. Quando ela entra no campo da disputa política, ela perde sua característica de refúgio comum”, afirmam especialistas em branding[1].

O Peso da Tradição vs. O Mercado Moderno

O boicote promovido por setores da direita e o cancelamento de pedidos por grandes redes de varejo mostram que, em 2025, nem mesmo os símbolos mais tradicionais estão imunes à polarização.

Enquanto isso, nas redes sociais, o debate se divide:

  1. Os defensores da marca: Enxergam a polêmica como uma interpretação distorcida de um roteiro criativo.
  2. Os críticos: Veem na escolha da protagonista e do texto uma desconexão da empresa com os valores de boa parte de seus consumidores fiéis.

O Futuro do Ícone

O desafio da Alpargatas para 2026 será resgatar a essência da sandália como um item “para todos”. Em um país dividido, a sandália que outrora unia o Brasil pelo conforto agora precisa provar que ainda serve em todos os pés — independentemente de qual lado eles comecem a caminhar.

Branding: Do inglês brand (marca). Processo de gestão que visa tornar uma marca mais conhecida, desejada e positiva na mente de seus consumidores.]

Da redação.

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